20/08/2016

Desistir? Agora é tarde demais...

Houve momentos em que a desilusão era tão grande, a tristeza tão profunda, era tanto o desapontamento, que eu não queria sequer acordar. Nem comer. Nem respirar. Nesses dias, ia buscar forças a uma paixão maior e seguia para mais um ensaio. Houve dias em que estive quase a ser vencida pelo cansaço e pelo desânimo, dias que fui sem comer e sem dormir.

Foto: Carmo Sousa na Escola de Dança Ana Kohler, algures entre Novembro 2015 e Maio 2016


Quando olhei a primeira vez para esta foto, pensei "porque é que não desisti?" Era tão mais fácil esconder-me durante aqueles fins de semana, fechar-me todos os sábados e todos os domingos, isolar-me e não me mostrar a ninguém. Eu fui. E todo o processo teve tanto de sofrido como de prazeroso. Tanto de sacrifício como de deleite. Saiu-me do corpo como sai um filho.
Quando vi esta foto de cima pensei como fui capaz de continuar. Mas a verdade é que em momento algum pensei em desistir. Simplesmente, essa ideia não me ocorreu. Quando vi esta fotografia e me lembrei que essa poderia ser uma saída, já tudo tinha acabado: a montagem, os ensaios, o espectáculo.

Depois, olho para a foto de baixo. A foto que não precisa de palavras.

Foto: Jorge Chincho Macedo no CCB, 5-6-2016

04/08/2016

Eu feliz.

Um dia, no início de uma aula, disse à Carmo (a fotógrafa): este ano vou ter muitas fotos tontas do espectáculo. Quero uma foto de bailarina.
No final da aula, ela disse-me que não tinha conseguido. Que era muito difícil, que as fotos estavam uma confusão, que não gostou de nenhuma. Depois mostrou-me esta. 
Não gosto nada desta, disse. Está horrível e vou apagá-la.
Não deixei. Esta sou eu. Esta sou eu a fazer o que mais gosto de fazer, no ambiente que mais gosto, com a concentração, a dedicação e a habilidade que sou capaz de dar. Havia muito para corrigir: o calcanhar devia estar mais para fora. A barriga mais para dentro. Os ombros para trás. As costas mais direitas. O pescoço (sempre o pescoço) está errado. A meia ponta consegue estar mais alta. Por isso é que existem as quartas feiras: para voltar àquele estúdio, para trabalhar, para corrigir, para ser todas as semanas melhor que na semana anterior.


Mas esta sou eu feliz.

22/07/2016

Quando casei, para além de ter pensado que escolhi a pessoa com quem cresceria, constituiria uma família, viveria, pensei que era aquela pessoa com quem queria envelhecer. Quando fosse velhinha e chata, cabelo todo branco e rugas da cabeça aos pés, quando já não conseguisse comer sozinha ou lembrar-me do meu nome, era aquela pessoa que eu contava ter ao meu lado. Quando os filhos dos nossos filhos já tivessem filhos e quando, aos domingos, esperássemos ansiosos pela visita de todos. Seria aquela pessoa, todos os natais, a ajudar-me a preparar a mesa com rigor para toda a gente, ou que diria que eu estava a exagerar no número de talheres que eu coloco na mesa. Ou que ralharia comigo porque eu não janto sentada nem me deito sem lavar a louça. 
Acontece que a vida dá muitas voltas e numa pirueta sem aviso, o rumo da vida mudou. E eu dou por mim a pensar como vai ser a minha velhice. Dou por mim a pensar na Avó Mimi que não sabe onde está, não conhece quem a acompanha diariamente, apesar de se lembrar de todos os pormenores da sua viagem de navio até Angola, para onde foi viver com o seu então recém marido, nos anos 20. 
Dou por mim a pensar na Avó Lena, acompanhada por um grupo de pessoas que acredita que o fim do mundo está próximo e só elas se salvarão porque são escolhidas pelo deus em que acreditam. 
Dou por mim a pensar na Xia e nos seus 90 anos, a fazer voluntariado em hospitais, acompanhando doentes acamados. 
Às vezes, sinto-me a envelhecer por dentro. Passo dias sem um sorriso. vejo-me cansada, esgotada e sozinha. Sinto o tempo a correr tão rápido que não consigo acompanhar o seu ritmo. Imagino o futuro tão próximo, que o que me espera dá-me medo. 
Esse medo, às vezes, impede-me de viver. Envelhecer com quem amamos, deve ser muito mais fácil.

12/07/2016

Quando os momentos de euforia têm um efeito precisamente oposto ao desejado.
Quando passamos umas horas divertidas, soltas e leves.
Quando pensamos que podemos ser felizes outra vez, rir outra vez. Quando nos é permitido tudo isto.
Quando chegamos a casa e percebemos que a realidade não é assim tão fácil quanto dois copos de vinho nos fizeram acreditar.
Quando acordamos e olhamos à volta e percebemos que o Mundo está exactamente no mesmo lugar. E o mesmo lugar não é o melhor lugar.

09/07/2016

15 dias.

Passo 15 dias a planear o fim de semana sem filhos. Faço listas, planos, combinações. Penso em sítios, restaurantes, praias, bares. No que vou comer, beber, escrever ou simplesmente arrumar ou limpar. São alíneas e alíneas, post-its e notas, rascunhos. Mil coisas pensadas e alinhadas.

Depois é sexta feira. Depois chego a casa. Depois vejo a casa limpa e arrumada. E vazia. E em silêncio. E depois este silêncio começa a doer e a martelar na minha cabeça. Não há jantar para fazer. Nem banhos para dar. Não se ouvem gritos nem gargalhadas nem ralhetes. Não há abraços nem mimos. Não há o cheiro deles, o pescoço deles, o quentinho deles.
Há o vazio.

Eu passo 15 dias a planear o meu tempo. O tempo só para mim que tanta falta me faz. 
Depois, passo-o a doer de saudades.

17/06/2016

Parem de crescer!

Às vezes, agarro-me a eles e brinco: parem de crescer!, e eles gritam, riem muito alto e dizem em tom de gozo: estou a crescer, estou a crescer!, como quem diz toma toma que em mim não mandas. 
Olho para eles e vejo-os a subir aos escorregas, a balouçar sem a minha ajuda, a perder o medo da água e a dar mergulhos na piscina. Vejo-os a desafiarem-se uns aos outros, a crescerem juntos, a deixarem de ser os meus bebés. Sinto-os a voarem sozinhos e incentivo-os a isso, mesmo sabendo que um dia eles tomarão o seu rumo e que vou ficar aqui sozinha. 
Nessa altura, saberei que fiz um bom trabalho com eles mas vou sofrer cada minuto da sua ausência. Nunca tive tanto medo que o tempo passasse como agora. Nunca temi tanto o futuro como este que terei de enfrentar. 
Por enquanto, resta-me brincar com isso e pedir-lhes (como quem pede para arrumar o quarto): parem de crescer, já! E eles riem!

08/06/2016

Quero mais.

Sento-me em frente a esta folha branca. Quero escrever sobre o fim de semana passado. Quero contar como correu o espectáculo da escola de Ballet, todos os pormenores, todos os episódios. Tento concentrar-me e não consigo escrever nada. 
Acontece todos os anos: são emoções muito fortes. Fortes demais para serem contadas: têm de ser vividas. A única coisa que eu consigo explicar é que vivi um sonho. Durante dois dias, vivi um sonho.
Correu muito bem: enchi a alma de aplausos, senti as gargalhadas do público, provoquei emoções, tive 1470 pessoas a olhar para mim. Dancei e actuei numa das melhores salas de espectáculo do país. É assustador e ao mesmo tempo esmagador. E viciante. Inebriante. Inexplicável.
Chorei, ri, tive medo, cansei-me, mas acima de tudo, diverti-me muito. E tive muita pena que tivesse chegado ao fim. Foram muitas emoções: fez acordar sentimentos adormecidos, fez reavivar memórias guardadas, fez descobrir novas amizades, cimentar antigas, sentir novas energias. Fez-me, sobretudo, crescer e amadurecer esta minha realidade.

Agora, voltou este vazio de uma vida normal, de um emprego normal, de uma rotina normal. Não é mau ser-se normal. É-se apenas.

E eu não nasci para ser apenas.


24/05/2016

Muitas vezes me ouviram dizer "o que custa são os primeiros dois anos". De todas as vezes que o disse, acreditei mesmo naquelas palavras, tive a certeza que seriam 24 meses puxados.
Esses dois anos já passaram. E eu só me apercebi disso este fim de semana quando os minis decidiram, por iniciativa deles, deitar as chupetas para o lixo. Eu, sem querer acreditar, expliquei as consequências do acto, lembrei, principalmente ao Manu, que é era o mais dependente e viciado na "xuxu", que o lixo era levado por um camião verde para muito longe. E ele "não faz mal: Manu é crescido" e logo ela atrás "fajmal: Teté quexida". E eu a insistir que o camião não volta, que vai meeeeesmo para longe e nem volta à noite antes de dormir. E ele, como sempre, a argumentar: "eu prometo, Mamã. O Manu até já usa cuecas", e ela, papagaia, "Mamã, Teté xá uja bécas!"

Foram dois anos que passaram a voar. Não: não custaram mais estes dois anos do que custarão os próximos. Foi fisicamente duro andar com os dois ao colo, acordar todas as noites, adormecer ao colo. Mas vê-los nestas conquistas juntos, neste processo de crescimento tão próximo e tão cúmplice, faz-me pensar que não custou nada. O que custa é vê-los crescer e deixarem de ser os meus bebés pequenos. 
Faria tudo igual outra vez: acordaria todas as noites, subiria todas as escadas com dois bebés ao colo, cantaria a mesma canção de embalar vezes e vezes sem conta.

Os meus bebés largaram a chuchas e não tarda já não usam fraldas. Muitas vezes disse que o que custa são os primeiros dois anos quando, na verdade, em vez de dois devia dizer 18.

08/05/2016

Expectativas.

No final, os culpados somos sempre nós.
Nós, que criamos expectativas.
Nós, que idealizamos o futuro.
Nós, que insistimos em prever cada minuto.

A vida não é previsível. Se fosse, perdia a piada.


30/04/2016

Dilar

A Dilar era uma senhora que trabalhava lá em casa quando eu era pequena. Eu sofria de amigdalites e, de 15 em 15 dias, lá ia eu ao Centro de Saúde para uma injecção de penicilina. Desta minha condição de saúde, a Dilar insistia em dizer à minha Mãe:
- Isto só pode ser mau olhado, Senhora Professora. Vá por mim que é mau olhado.
- Não diga isso à frente da garota, Dilar, que ela ainda acredita nessas coisas - sorria a minha Mãe.
- Ah, mas é mesmo para acreditar!
E, de quando em vez, mais vezes do que era normal, lá vinha eu ao colo do meu Pai, sem conseguir andar, depois de mais uma injecção.

Esta semana, pensei muito na Dilar. Eram quatro dias de férias planeados e divididos em arrumações e em fazer nada. Muito fazer nada. A primavera, finalmente, chegou, os miúdos não vão ao médico há quatro meses, o segundo aniversário da T para comemorar e organizar, tudo corria de feição. No dia dos anos dela, segundo dia de férias, ligaram da escola: que tem febre, que não come, que está xoxa. Partir daí, abortaram-se todos os planos: a T não sai do colo.
Há seis anos que é assim: quando tiro uns dias de férias só para mim, há sempre um filho doente. Não é às vezes, é sempre! E a Dilar na minha cabeça:
- Isto só pode ser mau olhado.

Se eu acreditasse nestas coisas, daria razão à Dilar. Como não acredito, fiz brigadeiros. Porque não há nada como uma casa a cheirar a chocolate para nos aquecer o coração pequenino de Mãe.

27/04/2016

27/4

Vocês lembram-se: eu queria mesmo outro rapaz e fiquei em choque quando soube que vinha uma menina. Depois, veio a confusão do nome, a epopeia que foi encontrar um que gostássemos, as discussões que houve à volta disto. Depois chegou o grande dia e foi aquele Amor. O Amor que não se divide pelos filhos que se tem, mas multiplica-se logo que os sabemos dentro de nós.
E ela cresce rápido e fala e explica-se e corre e come tudo e muito. E é torta e teimosa e independente. Mas depois, olha-nos com aquela denguice que eu nunca vi nos rapazes e perdoamos (quase) tudo. Há quem diga que eu precisava de uma menina na minha vida. Que ela só me fez bem. Que foi ela quem conseguiu ressuscitar o meu lado feminino. Ela só me faz bem, é certo. O resto, quem sabe?

"Esta miúda é um exagero", canta o Jorge Palma. Deve ser a frase que mais vezes me passa pela cabeça quando a olho. Um exagero no que come, na cumplicidade com o Manuel, na protecção que procura no António, na concentração a fazer desenhos, na precisão a construir legos, na velocidade com que corre pela casa, na alegria quando me vê. Esta miúda é um exagero no Amor que lhe tenho, no mimo que trocamos, na atenção que me pede. E é um exagero tão bom...

Esta é a minha miúda e faz hoje dois anos. Dois anos de covinha na bochecha e olhos que mudam de cor.
Dois anos de Little Miss T.


21/04/2016

Em silêncio.

As palavras que nunca te direi podiam mudar tudo. 
Não adoro mudanças. Adapto-me bem a tudo, mas não gosto de sair do conforto do conhecido. Arrisco, por vezes, mas não me é fácil. 
A experiência e a idade já me fazem prever alguns embustes com clareza. Nem sempre quero fugir deles. Sei o meu lugar em cada um dos papéis que desempenho. Sei que vou cair ao aterrar. A dúvida é saber se voo ou se fico em terra. E todos os dias mudo de ideias. Hoje, decidi voar. Amanhã, quem sabe?
As palavras que nunca te direi vão ficar num rascunho bem guardado. Bem junto de tantas outras mudanças que nunca chegaram a acontecer. 
Enquanto voo, aprecio a vista. Em silêncio.


07/04/2016

Um mês de sportv cá em casa, dá isto.

Eu diria que jogar à defesa é mais seguro. Mas isso sou eu que sou uma medricas e arriscar, para mim, é uma palavra que só existe no dicionário. Quem percebe do assunto, no entanto, saberá que jogar à defesa é típico da equipa insegura: o jogo confortável, monótono, entediante até. 
A equipa que ganha tem mais confiança para jogar ao ataque. A auto-estima e o conforto do resultado permite-lhe, lá está, arriscar. Há espaço para brilhar e, com alguns bafos de sorte, a probabilidade de fazer um jogo memorável é grande.
Já a fazer o efeito oposto está o excesso de confiança: rouba a atenção dos jogadores para detalhes importantes, às vezes óbvios. Erros de palmatória que, num segundo, viram o resultado. Já se perderam campeonatos assim. Mesmo que os adeptos perdoem, a equipa estará ferida para sempre. 
Posto isto, qual é a melhor táctica de jogo que um treinador pode adoptar? Qual o discurso nos minutos que antecedem a partida? Dependerá, a estratégia, apenas da equipa adversária?

"Mais vale não defender. Afinal, o que se ganha com isso?", disse-me alguém hoje. 

Eu diria que jogar à defesa é mais seguro. Mas eu sou uma medricas e não entendo nada de futebol.

06/04/2016

Margaritas.

Não venho aqui há muito tempo. É recorrente: sou mais assídua quando a vida me corre muito mal ou muito bem. O assim-assim é morno e não me dá assuntos para escrever.
Sei que tenho leitores novos (ou pensam que depois de um jantar regado a margaritas não mereciam menção no blog??), tenho leitores antigos a reclamar a ausência. Não é que falte tempo: mas falta assunto. A maioria das vezes, o silêncio é a melhor arma.
E, por falar em armas, estou a aprender que ficar à defesa cansa muito. Cansa disfarçar. Mas habituamo-nos a isso com relativa facilidade (há dias melhores que outros, como em tudo). Tornou-se tão mecânico que deixa de ser difícil. Torna-se quase natural. E quase fácil. Mas cansa.

Já dizia o outro que viver todos os dias cansa. E eu já tirava umas férias desta quase vida. Oh se tirava...

08/03/2016

Amo-te mas já não gosto de ti.

Foste o amor da minha vida. 
E este pretérito, apesar de perfeito, deixa um amargo na boca, uma sensação de que esta frase está toda errada porque a vida continua. Devia ser o presente a descrever o sentimento e a nostalgia que sinto ao pensar em nós. Ou o pretérito imperfeito que inicia todas as histórias da nossa infância: era uma vez... Mas não. Tal como este pretérito perfeito encerra o "viveram felizes para sempre", também serve para contar a nossa história.
Hoje, disse-o em voz alta, algures numa conversa especial num café qualquer. "Foi o amor da minha vida". E a vida continua, e o amor continua, e os dias continuam. Mas o pretérito, apesar de perfeito, amarga a história que chegou ao fim.
Amo-te mas já não gosto de ti. Capítulo encerrado, digerido e pensado, chorado e ultrapassado. Passado. 
O futuro é uma porta que agora se abre, devagarinho. 

28/02/2016

Are you?

Depois de se morrer um bocadinho é normal que se volte a nascer. E essa nova vida que se encontra depois do negro da quase-morte pode ser um jardim verde e ameno ou pode ser um verão colorido e festivo. Também pode ter as cores vivas do outono ou o cinzento da monotonia.
Ou então, pode ter tudo isto alternado nos dias. Ou mesmo num único dia.
É esta inconstância que nos faz sentir vivos outra vez, faz o sangue correr nas veias, faz perder a concentração, ganhar calor, perder o juízo e encontrar a loucura.
A inconstância dos dias fa-los passar a correr, faz do monótono alegria, faz luz na escuridão, faz crescer borboletas na barriga. A inconstância dos dias depois de uma quase-morte faz-nos viver.

E viver é bom. Afinal, é mesmo bom.


13/02/2016

4 meses

Passaram quatro meses. E apesar de alguns solavancos, o caminho vai-se fazendo. Todos nos habituamos às novas rotinas, às novas realidades. Todos encontramos novas maneiras de viver. Todos.

Apesar de tudo, e principalmente por eles, continuamos a ser uma família. Uma família diferente, mas uma Família.

Foto tirada no dia do 3º aniversário do Manuel.

30/01/2016

Às vezes, perguntam-me se são gémeos.

Principalmente, quando vamos na rua com o carrinho, as pessoas passam e dizem "que giros, são gémeos?". Só ao segundo olhar é que percebem que não: não são gémeos.
Todos os dias vejo-os crescer juntos. As brincadeiras são as mesmas, os interesses os mesmos, as necessidades, a linguagem... Até as roupas poderiam ser as mesmas.
Quando dou uma bolacha à Teresa, ela pede-me outra para o Manu. Quando ele vai buscar uma folha para desenhar, traz outra para a mana. Quando vão para a cama, querem sempre dormir juntos. Gostam dos mesmos bonecos na televisão, ajudam-se a calçar, adoram ler histórias um ao outro.
O Manu nunca se vai lembrar o que era a vida sem a Teresa. 
  

Eles têm 14 meses de diferença. 

Não, eles não são gémeos. Mas às vezes, até eu me esqueço disso.

22/01/2016

O Beijo.

Gosto de beijos.
Detesto beijinhos. Odeio beijocas. Abomino os bjs.

Isto são beijos. Com B grande.


Percebem agora?

17/01/2016

A foto dos totós.


Tenho pena que  pureza das crianças seja tão efémera. E mais pena tenho de ver que os culpados disto são os adultos.
Pela primeira vez, fiz totós à Teresa e o Manuel, como é óbvio de manos-quase-gémeos destas idades, também quis uns iguais. Fizemos a nossa vida, saímos, passeamos e reparei que os olhares se dirigiam a nós. Mas desta vez, não eram os olhares sorridentes habituais, como que a dizer "olha que giros, dois bebés no mesmo carrinho". Reparei em olhares reprovadores, críticos, negativos. E não gostei. Felizmente, eles são muito pequeninos para perceber.
A minha Mãe perguntou-me "porque é que o deixaste sair de totós?". O que a maioria das pessoas não percebe é que a pergunta tem de ser feita ao contrário: porque não?
O que me interessa, muito mais que a questão do género, é criar nos meus filhos estímulos para a construção de uma identidade que os faça felizes, em que eles se sintam confortáveis. Interessa-me valorizar cada conquista, cada vontade, cada vitória. 
Os totós são só elásticos no cabelo.
Enquanto se pensar ao contrário, nunca vamos viver num mundo de igualdade que todos desejamos mas para o qual muito poucos lutam.

15/01/2016

Das mudanças.

Tudo isto que tem vindo a acontecer não traz só coisas más. Uma das coisas boas, é poder pôr a casa a meu (e só meu) gosto. Estou a adorar refazer o meu "escritório", que não é mais do que um canto da sala. Estou com o mesmo entusiasmo que tive há 11 anos, quando fui viver sozinha para um T1 nas Avenidas Novas.
Este é o meu novo cantinho preferido da casa:







Acho que não sou a única a gostar deste canto.

14/01/2016

Qual é o teu lugar?

Crescer é assim. Faz doer os ossos, as articulações, o orgulho e o ego. De um dia para o outro, deixamos de ser meninas para sermos mulheres. Todos esperam de nós o melhor, o expectável, o razoável. E tudo o que fazes é julgado, opinado, posto à prova.
Sabes que cresceste quando os outros deixam de importar. Quando decides fazer só o que te dá na real gana, sem pensar nos outros. Quando te pões em primeiro lugar. Mas até chegar aí, suas, levas chapadas, rasteiras, facadas nas costas. É um caminho difícil e sinuoso. Uma montanha russa cheia de obstáculos.
Os clichés invadem a tua atenção: "guarda as pedras do caminho", "és a pessoa mais importante do universo", "o que não te mata torna-te mais forte", "um dia ainda vais rir disto" ou "a vida só te dá aquilo que consegues suportar". Filosofias de wc escritas pelos Gustavos Santos que proliferam como cogumelos. Tretas. Só tretas.
Quando olhas para uma pessoa, não sabes a batalha que ela está a travar. Não sabes o que está do outro lado do iceberg. Não sabes o que a magoa mais, quão frágil está, se quer falar ou sequer ouvir. Por debaixo da crosta, não sabes o tamanho da ferida: não a escarafunches sem saber se ela está cicatrizada. Não a cutuques se não queres ser sacudido.
Todos têm as suas batalhas. Mais ou menos graves, mais ou menos válidas, mais ou menos óbvias, mais ou menos compreensíveis. Todos.
Respeita. Valoriza. Disponibiliza-te se assim quiseres. Se não quiseres, desaparece. Não provoques. Não perguntes. Sê presente. Mostra-te disponível. Aparece de surpresa.

Crescer dói. E dói muito. Respeita. Põe-te no teu lugar. 

04/01/2016

2016

Com a passagem do ano, pensei em tomar algumas resoluções importantes na minha vida, como é aliás apanágio da época festiva. Pensei, então, nos mais comuns, mas já deixei de fumar há mais de 3 anos, já mudei a minha alimentação, já comecei a correr, já sou dadora de sangue e medula. Cheguei à conclusão que, com isto da idade, a malta vai ficando sem resoluções de ano novo para tomar (porque entretanto foi tomando) e o dia 1 passa a ser uma seca. Nem um item-zinho na to-do-list. Uma página em branco.

Foi, então, a olhar para o meu iPad com o telefone na mão, sentada à frente do computador, que ouvi a minha filha mais nova a pedir-me qualquer coisa:
- Mamã, aifoi mi.
E eu perguntava o que é que ela queria: um desenho?, o Baby TV?, uma história? E ela continuava a apontar para a minha mão e "aifoi mi, Mamã, bufafor". Lá educadinha é ela, por enquanto, e posso não perceber o que quer, mas percebo um "por favor" à distância. 
Só passado um bom bocado é que percebi que ela estava a pedir-me o iPhone, já com lágrimas e o dedo espetado para a primeira aplicação que encontrasse. Tocaram sinos, nessa altura. Trombones, saxofones, xilofones e todos os instrumentos acabados em ones. Caramba, os meus filhos estão viciados nas tecnologias. E o pior é que eu também!

Por isso, decidi desligar-me mais dos iPhones e iPads e MacBooks desta casa, pelo menos quando estou com eles. Principalmente, agora que não há mais nenhum adulto a viver nesta casa. Quando estou com eles, vou estar com eles a 100%. Claro que já é dia 4 e ainda não consegui deixar de espreitar o facebook uma vez por outra ou responder a uma laracha no whatsapp enquanto aquecia as sopas. Baby steps, lá chegarei.

02/01/2016

2/1/2016

Um dia é apenas um dia. 
Uma efeméride, triste ou feliz, não passa de uma efeméride. Terá tanta importância quanta aquela que lhe dermos.
Um dia só é feliz até deixar de o ser. Não há dias bons para comemorarmos acontecimentos maus. E não há maus dias para comemorar acontecimentos felizes. 

Neste dia, há sete anos, foi o meu dia. Um dos dias mais felizes da minha vida. Lembro-me de cada minuto do dia, cada pormenor, cada cara e cada olhar que comemorou comigo, cada passo, cada música, cada sorriso. Lembro-me com todo o pormenor da vista sobre o Tejo, a ponte iluminada, o céu limpo e estrelado, apesar de ter estado a chover o dia todo. Lembro-me de todos os pormenores. 

Foi há sete anos e não se comemora mais. 

01/01/2016

O teu brilho.

Querido e doce Bruno,

Naquele dia 13 de outubro senti o meu mundo ruir. Tudo (ou quase tudo) deixou de fazer sentido, deixei de ter vontade de acordar, não tive força para comer durante dias, só pensava em correr e olhar pelos meus filhos. Foi só por eles que arranjei coragem para seguir em frente. Mesmo assim, os dias passam com dores: de alma, de orgulho, de coração.
Um pouco mais tarde, soube da tua história. Nesse dia, lembro-me bem, senti-me a pessoa mais egoísta do planeta. Algo bem mais forte estava a dar cabo do meu colega e eu chorava por Amor. O que é um desgosto de Amor, afinal, perto de uma doença que nos põe tudo em perspectiva? Essa filha da puta de doença que nos persegue e mata e corrói e nos assusta?
Quando ontem vi as tuas fotos da passagem de ano, o teu brilho, tive vontade de te abraçar muito forte. Não eram os teus olhos que brilhavam. Não era a tua careca que brilhava (também era). Eras tu quem brilhava naquelas fotos. Era a tua força para fazer rir toda uma enfermaria, era a tua disposição, o teu sorriso, o teu olhar doce, a tua coragem
Eras tu quem brilhava. 

Nas primeiras horas do ano, com a minha cama cheia de filhos e a minha vida vazia de sentido, vi o teu brilho. E tive a certeza que, com a tua força, vais conseguir matar esse bicho mau. E tive a certeza que, com o teu exemplo, vou saber aproveitar e dar sentido a cada momento da minha vida. 

Obrigada, querido e doce Bruno. 
Vou ficar aqui à tua espera para te dar o abraço que mereces. 
Muito obrigada.