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08/11/2017

Promessas

Desta vez, vai ser diferente.

Promete que não vais tratar-me bem, não vais fazer juras de amor eterno, que não vais fazer-me rir. Promete que não vais dizer que sou a melhor do mundo. 
Promete que não vais mandar mensagens de manhã que me vão fazer sorrir. Promete que não pensas em mim antes de adormecer.
Promete que não vamos passear de mãos dadas por Lisboa. Que não vamos ver o sol a pôr-se no mar. Nem vamos esperar para o ver nascer, ainda embrulhados em gargalhadas e álcool. 
Promete que não me vais oferecer flores nem memórias nem carinhos. 
Promete que não vais fazer-me sentir mulher outra vez, que não vais olhar para o mais profundo dos meus olhares, que não vais descobrir-me devagarinho, sem pressa, como se o mundo lá fora não existisse. 
Promete que não me vais mentir.

Sobretudo, por favor, promete-me que não vais fazer promessas.

28/04/2008

Eu sou o Ilídio - Parte VII

Até que, uma bela noite, mesmo por debaixo da publicidade do lubrificante anal, surge um alerta de nova mensagem que deixou Ilídio com o coração na boca e nas mãos. Ao abrir a mensagem, o nosso homem soltou o maior grito de prazer da sua vida, que saíu até um bocado rouco porque ele já não proferia uma palavra há vários dias. Isto porque a mensagem era, nada mais nada menos, de Svetlana, a sua musa inspiradora, e fez iluminar a escuridão da sua vida, deu um cheiro especial à portaria do Instituto, deu um sabor particularmente doce ao seu amor. Mesmo antes de ler a mensagem, Ilídio já era o homem mais feliz do Mundo!

14/04/2008

Eu sou o Ilídio - Parte VI

Passaram seis semanas, seis, e Ilídio não obteve qualquer resposta da parte dos peitos, perdão, por parte da mulher amada e por isso os seus poemas tornaram-se tristes e escuros, longos fados e canções de desespero e desilusão descorridos naquele caderninho que o acompanhava. Como eram cruéis o mundo e o amor, e como estava mais bonita Svetlana, cada dia que passava! Centenas de milhares de suspiros quebraram o silêncio da portaria daquele edifício, rasgaram a escuridão, penetraram fundo na solidão daquele espaço marcado pela dor do desprezo.

10/04/2008

Eu sou o Ilídio - Parte V

Uma noite, Ilídio perdeu a vergonha e decidiu enviar uma mensagem para Svetlana através de um dos sites onde estavam registados. Enviou-lhe o soneto mais bonito que alguma vez os peitos de Svetlana inspiraram e que deixaria Florbela Espanca corada de vergonha. Escolheu milimetricamente cada palavra, mas também o tipo, a cor e o tamanho da letra. Queria que tudo estivesse perfeito para que a mulher que amava há tanto tempo se apaixonasse por ele no momento em que olhasse o écran do seu computador, e por isso optou por escrever em Monotype Corsiva número 12 a Mogno, que era uma cor discreta e, sobretudo, romântica. O seu soneto começava assim:


Eu sou o Ilídio...

07/04/2008

Eu sou o Ilídio - Parte IV

A noite de um Segurança de serviço não tem muito que se lhe diga, por isso Ilídio passava o seu tempo a ler jornais desportivos do dia anterior, a fazer Sudokus, a escrever poemas e a ver sites pornográficos registado com o nick de Poderoso69 (porque este era o ano do seu nascimento). Foi num desses sites que se apaixonou por Svetlana, uma búlgara loira e de olhos azuis, com as medidas de uma Deusa Grega, ou pelo menos era o que dizia no perfil que usava. O que ele gostava mesmo era de ficar a olhar para aquela foto em que se via o peito farto de Svetlana, e era vê-lo a escrever sonetos atrás de sonetos, quadras e mais quadras, rimas ricas, rimas pobres acabadas em AR; Ilídio olhava para o peito de Svetlana e vomitava estrofes decassilábicas como se não houvesse amanhã. Depois, suspirava tão profundamente, como se o desejo de ver a sua musa inspiradora fosse a única razão do bater do seu coração.

05/04/2008

Eu sou o Ilídio - Parte III

Havia semanas que Ilídio não falava com ninguém. Tirando o final do mês, em que fazia questão de comprar o passe no quiosque para dois dedos de conversa e, muito de vez em quando, quando a Central ligava para o Instituto para saber quem estava de serviço naquela noite, não tinha necessidade de abrir a boca para nada. Ainda se lembrava daquela semana em que teve que falar duas vezes, e como isso o deixou meio abananado e um bocado zonzo. Até pensou em meter baixa, mas para isso tinha de ligar ao Supervisor e falar com ele, por isso decidiu tomar um Valdispert e esperar que passasse.

04/04/2008

Eu sou o Ilídio - Parte II

O nosso protagonista era Segurança de profissão e fazia, há já vários anos, o turno da noite numa Instituição Pública, daquelas que passa o dia cheia de gente enfadonha a tratar de assuntos enfadonhos, gente que demora duas horas para ser atendida, que reclama, que grita, que chora, que lamenta que o Estado não é justo e que só ajuda os ricos porque os pobres não dão a render e que quem se lixa é sempre mas sempre o mexilhão, mas que de noite não se vê nem se ouve sequer um mosquito porque, ao que parece, também estes fazem o horário das 9 às 5 com intervalos de café, almoço, lanche e, mais recentemente, cigarro.

03/04/2008

Eu sou o Ilídio - Parte I

Ilídio era um homem solitário. Começando pelo facto de trabalhar num horário diferente da maioria das pessoas daquela cidade, e acabando no facto de viver sozinho num t0 em Alverca desde que deixou de falar com os seus pais porque estes não aceitam um filho poeta, e que poetas são os comunas ou aqueles que não gostam de trabalhar ou os mariconços e que homem que é homem bebe minis e copos de três a penalti na tasca do Teodósio e não anda por aí à noite de caderninho debaixo do braço a fingir que sofre por amor.