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07/09/2016

Dos sonhos.

Altura, Algarve. Julho, 36º, mar quente, vento fraco. areia morna. Corpos bronzeados.
De repente, estou na praia, dentro de água, com os meus filhos. Todos os três. Nenhum a chorar ou com medo ou contrariado. Estão felizes e ouvem-se gargalhadas e gritos de excitação. 
Voltem a ler o parágrafo anterior, por favor. Aqueles que conhecem os meus filhos pessoalmente e há mais tempo: voltem a ler. 
Quais noites de sono interrompidas. Quais xixi e cocós fora do bacio. Quais autonomia, birras, choros  ou doenças. Naquele momento, estava a realizar um dos sonhos da minha vida. Naquele momento, tudo o que há de menos bom na minha experiência no mundo da maternidade, foi imediatamente esquecido. 
Eu estou na praia, dentro de água, com os meus filhos. Eu estou a brincar na água do mar com os meus três filhos.
A felicidade existe e estava ali mesmo, naquela praia.


A emoção foi tanta, que não me lembrei de registar o momento.
Fica esta lembrança, só com os rapazes.

09/07/2016

15 dias.

Passo 15 dias a planear o fim de semana sem filhos. Faço listas, planos, combinações. Penso em sítios, restaurantes, praias, bares. No que vou comer, beber, escrever ou simplesmente arrumar ou limpar. São alíneas e alíneas, post-its e notas, rascunhos. Mil coisas pensadas e alinhadas.

Depois é sexta feira. Depois chego a casa. Depois vejo a casa limpa e arrumada. E vazia. E em silêncio. E depois este silêncio começa a doer e a martelar na minha cabeça. Não há jantar para fazer. Nem banhos para dar. Não se ouvem gritos nem gargalhadas nem ralhetes. Não há abraços nem mimos. Não há o cheiro deles, o pescoço deles, o quentinho deles.
Há o vazio.

Eu passo 15 dias a planear o meu tempo. O tempo só para mim que tanta falta me faz. 
Depois, passo-o a doer de saudades.

24/11/2015

Importa-se de repetir? Parte III

- Mamã, sabes quanto é 5+5? É 10. E 10+10? É 20. E 20+20?
Eu tentava responder, mas ele não dava tempo. 
- E 100+100? É 200. E...
Interrompi:
- Agora sou eu. Diz-me lá se sabes quanto é 5-5!
- Xiiii, tão fácil!! É zero!
- E 0-5?
- É 5. 
- Não é mais! É menos! Zero menos cinco dá quanto?
- Então, tenho que pôr 0 na minha cabeça. Menos 5... Dá... Hummmm...
Ajudei:
- Imagina que tens zero rebuçados e tiras cinco...?
- Ah!! Se tenho zero, tenho que ir pedir rebuçados aos amigos! 

23/11/2015

Importa-se de repetir? Parte II

- Fazes assim: pegas nesta peça e pintas de madeira, precisas de três metades médias de fita-cola e depois desenhas um balão e pintas de qualquer coisa de cor. Por exemplo, de vermelho do Benfica. Apontaste tudo o que precisas, Mamã?

Hã?

02/11/2015

Importa-se de repetir?

Estávamos os quatro no carro, a caminho da escola. Ouvíamos o noticiário das 8h e a jornalista anunciava o fim da greve de fome de Luaty Beirão. Não consegui esconder a minha alegria e manifestei-a em alta voz:
- Que bom! Acabou aquela luta. Aquele miúdo não merecia ser mártir. Que alívio daquela família. Estou mesmo contente.
Começaram as perguntas:
- O que aconteceu? Porque estás contente? Angola é o país do Délcio; é muito longe? O que é uma greve? Porque é que ele tinha fome?
Decidi desligar o rádio e explicar o que tinha acontecido. Fiz os possíveis para que um miúdo de seis anos percebesse.
- Um grupo de rapazes foi preso em Angola porque pensaram que eles queriam fazer mal a quem está no Governo.
- Ao Presidente da República?
- Sim, pensaram que eles queriam fazer maldades e então prenderam-nos. Mas na verdade, eles não fizeram mal a ninguém. Só disseram que não estavam contentes com o Presidente da República.
- Dizer mal é proibido?
- Não é proibido. Só é proibido dizer asneiras e palavras de adultos. Mas eles nem disseram asneiras nenhumas. Foi muito injusto o que fizeram: prenderam-nos sem razão. Por isso, um dos rapazes decidiu parar de comer até serem libertados. Não comeu nada: nem pequeno almoço nem almoço nem jantar durante mais de um mês. Já imaginaste o que isso é? Sabes o que acontece quando as pessoas não comem?
- Morrem?
- Exactamente! Ele estava a ficar doente porque não comia. E hoje decidiu voltar a comer.
- Já não está preso?
- Está. Ele e os outros. Mas agora ele come e já ninguém vai morrer.
- E estás contente?
- Estou.

Dei um tempo para aquela cabeça assimilar tanta informação Estava mesmo contente com as perguntas que me ia fazendo. Ele estava mesmo a perceber e a interessar-se por questões actuais e fracturantes da vida política do século XXI. Já não era o menino desligado a fazer perguntas sem ouvir as respostas. Aquela cabeça estava no lugar.
Passados uns bons cinco minutos:

- Mamã?
- Sim?
- Esse grupo de rapazes eram os Queen?

17/10/2015

Tenho um filho no 1º ano!

O processo de aprendizagem está a ser maravilhoso.
Sou filha de professora, por isso tenho muitas noções (ainda que muito gerais) dos métodos de ensino básico: sempre gostei de ajudar a minha Mãe a planificar as aulas, a organizar os trabalhos dos alunos, sempre gostei de a visitar em sala e sempre que a visitava tentava participar.
Quando conheci o Professor do António, estava cheia de medo porque sabia que o método usado não era o convencional. Eu conhecia o método. Sabia que ele não iria ter manuais nem TPC's nem fichas. Sabia que ele não ia aprender o aeiou nem encher páginas de letras i's só porque sim. Sabia que era ele quem ia decidir o que aprender e com que ritmo. Sabia que ia ter meninos do 1º e 2º ano na mesma sala de aula. Ainda assim, fui com medo que o meu "bebé" não se adaptasse.
Apesar desse receio, que passou na primeira reunião individual com o Professor, nunca duvidei que era aquilo que eu queria para o meu filho. Que eu queria para nós: que o seu ritmo fosse respeitado, que a curiosidade fosse espicaçada, que ele seria provocado e levado a pensar muito mais além. Nunca duvidei do Colégio (que já conhecemos e que ele já frequenta desde o primeiro ano de vida), nunca duvidei do método (que ele já pratica desde que entrou no Colégio) e, acima de tudo, nunca duvidei do Professor que, apesar de ser novo no Colégio, foi por ele escolhido criteriosamente. Logo, para mim, foi a melhor escolha.
Todos os domingos, o Professor envia por mail o "resumo da semana": uma mail (enorme) com tudo o que os miúdos fizeram, programaram, deixaram por fazer. Todos os domingos fico com a ideia clara do ambiente que se viveu naquela sala, quase ouço as suas dúvidas, quase vejo os olhos atentos, os dedos no ar, os lápis roídos nas pontas. Isto para mim vale ouro porque tenho um filho que não fala do que se passa na escola. Nunca falou.
Talvez tenha errado na profissão. Talvez devesse ter seguido os conselhos da minha Mãe e seguido a profissão dela. Talvez.
Por agora, estou a adorar vê-lo a aprender.

15/10/2015

Tão pequenino e já sabe tanta coisa...

No seu aniversário, o António recebeu de presente (entre outras coisas) uma nota de 20€. Para ele começar a dar valor ao dinheiro, expliquei quanto ele tinha e que podia comprar o que quisesse. Ele quis ir ao Continente comprar um brinquedo para ele e outro para o Manu.
Estivemos a ver imensas coisas e ele já percebia o que podia          ou não com prar com aquela quantia. Escolheu, levamos para a caixa, pagou, recebeu troco. Ao sair:
- Obrigado, Mamã! Estou muito feliz e adoro-te.
- Mas eu não fiz nada, António! O dinheiro era teu.
- Ah, pois é! Obrigado, dinheiro. Adoro-te!

12/10/2015

Pára de crescer já!!

Hoje, no caminho para casa, o António explicou que fizeram uma lista de palavras com EU: museu, meu, adeus. Ao chegar a casa, continuou a lista com o Pai: Eusébio, Matateu, Mateus. 
Feita a lista, o António disse que agora tínhamos que fazer frases com estas palavras. O Pai foi o primeiro:
J - Este é o teu candeeiro. Agora és tu. 
A - Este é o t' Eugénio de Andrade. 

06/10/2015

1º dia de aulas.

Nunca tive o primeiro dia de aulas. Tive, claro, mas não foi igual ao da maioria das pessoas.
Eu, praticamente, nasci numa escola primária: a minha Mãe foi Professora e eu ia sempre para a escola com ela. Estive durante algum tempo num Jardim de Infância. Pouco tempo. Então, passava os dias a saltar de sala em sala, a servir de boneca dos outros meninos (mais das meninas), a ser estragada pelas Auxiliares, a ser mimada pelas outras professoras.
O meu primeiro dia de aulas foi só mais um dia na escola. Não houve fotos, não houve cerimónia, não houve apresentação oficial da professora: eu conhecia-a desde que nasci (eu sou do tempo dos professores vinculados e efectivos e que seguiam as turmas do 1º ao 4º ano).

Foi com grande entusiasmo que eu vivi o primeiro dia de aulas do António. Este, não sendo, foi o MEU primeiro dia de aulas e estava mais nervosa do que ele. Claro que, no mesmo Colégio, com os mesmos colegas, com um Professor que já conhecia desde o início do mês, para ele foi só mais um dia.
Para mim foi a emoção do começo de um percurso de, espero, sucesso.
Tirei fotos, fixei caras felizes e sorrisos desdentados e, quando me fui embora, chorei na porta da escola.

Não fui a única.

23/06/2015

As pequenas vitórias.

A jantar, expliquei-lhes que é noite de S. João e que faz 2 anos que o António deitou a chucha para o lixo. Estávamos no Porto e ele disse: não quero mais chucha; vou deitar no lixo. O meu coração doeu nessa noite. Já aqui expliquei que o assunto chucha é dos mais sensíveis para mim porque lembro-me per-fei-ta-men-te do dia em que eu larguei a minha e o que me custou. Lembro-me como se fosse hoje. O meu coração doeu por isso mas também por perceber que o meu bebé já não era assim tão bebé.
Deitei-os como de costume. Beijinhos (de todos) e ralhetes (meus) e juras de amor eterno (do António). Pouco depois, veio ter comigo à sala:

- Mamã, posso dizer-te uma coisa?

E eu já ia lançada num novo ralhete quando ele mostrou os dedos.

- Olha, Mamã, o que eu já consigo fazer.

E começou a fazer estalidos com os dedos. Primeiro com a direita, depois com a esquerda. Até já consegue fazer com a esquerda!! Anda a treinar há meses e hoje conseguiu na perfeição. Hoje, dois anos depois do primeiro passo para ser crescido. 
Abracei-o com força, disse BOA!!! com entusiasmo e fiquei mesmo feliz por vê-lo tão feliz. No fim:

- Agora posso dormir na tua cama?

Como se pode recusar um pedido destes? Não se pode.

20/05/2015

A Grande Invasão

Na noite passada, eles invadiram a minha cama. Primeiro o Manuel, com aqueles passinhos curtinhos, ouço-o a chegar. Sinto a mão dele na minha cara e  sussurra "Mamã". Aproveito a noitada de trabalho do Pai, puxo-o para o meu lado e adormeço com os seus braços no meu pescoço. 
Acordo antes do despertador tocar e sinto um peso na minha perna: há quanto tempo estaria o António ali a dormir? Fechei os olhos mais um bocadinho e fiquei a ouvi-los dormir, o cheiro a encher-me a alma. 
Quando chegou a minha hora, saí da cama e fui à minha vida. Saí de casa e deixei-os todos a dormir. 

À tarde, no carro, expliquei que não podia ser, cada um tinha a sua cama, que não podiam dormir comigo. Que eu não dormia bem com eles, que o Papá não dormia bem na cama deles, que isto tinha de acabar. 

Agora, estou aqui deitada nesta cama enorme, cheia de vontade que um deles decida invadir novamente este espaço, para poder beber daquele mimo outra vez. 

03/05/2015

Dia da Mãe

Este ano lectivo, na sala do António, fizeram uma iniciativa gira: a Família Leitora. Cada menino escolheu um livro e todas as semanas os livros rodam as famílias, ou seja, cada menino leva um livro para casa para lê-lo e trabalha-lo em Família. Depois de o trabalhar, deve registar o que aprendeu em forma de desenho, pintura, matemática, tentativa de escrita, o que quiser e se quiser.

Nem de propósito, hoje lemos "Quando a Mãe Grita".


Eu sou uma Mãe que grita, que dá palmadas, que põe a "pensar na vida". Confesso que há dias que sou a Mãe que só quer sair de casa e fugir, apesar de todos os livros e artigos que estudei sobre Disciplina Positiva. 

Quando as Mães gritam deixam os filhos desfeitos. E os meus não são excepção.
Quando acabamos de ler o livro, tal como a Mãe da história, pedi-lhe desculpa.

- Não faz mal, Mamã. Eu sei que gostas de nós na mesma e só gritas quando os teus filhos se portam mesmo mal. Mas vamos tentar não portar mal outra vez, está bem?

No dia da Mãe, lemos um livro de partilha das Famílias que serve para os miúdos aprenderem. Neste dia da Mãe, eu é que aprendi uma grande lição.


23/04/2015

Tenho um filho que sabe ler.

As perguntas começaram há alguns meses. 

- Como é que se lê esta letra? O que é que está aqui escrito? Como é que se escreve Benfica?

Nunca insisti em nada. Nunca perguntei o que ele já sabia. Sei que ele gosta mais de números e contas mas ficava muito feliz quando ele me perguntava sobre as letras que via. E ficava muito triste porque ele não percebia que o N se lê ne ou quando se esquecia que um C e um A se lê ca e não ça. Explicava, mas nunca insistia. Quando ele se fartava do jogo eu agia naturalmente e encontrávamos outra brincadeira.

Lembro-me do dia em que comecei a ler. Lembro-me perfeitamente de estar na sala com um jornal na mão depois do jantar e perguntar ao meu irmão como é que se lia aquela letra. Ou o outro conjunto de letras. De achar curioso quando ele me desvendou o segredo e explicou que o L e H juntos fazem lh. Ainda a primeira classe era uma miragem distante. A minha Mãe diz que tinha cinco anos acabados de fazer.

No outro dia, o jogo voltou à hora do jantar:

- Escreve lá uma palavra para eu ler. 

E eu escrevi PATO. Ele leu PATÓ mas corrigiu imediatamente. Escrevi COPO, MALA, CAMA, MAPA. Arrisquei no TOMATE, SAPATO. Ele sempre a ler com as vogais todas abertas SÁ-PÁ-TÓ. Corrigia de seguida e dava gritos de alegria ao perceber que acertava. Fui mais longe ainda e experimentei um ditongo: PAPAIA. Engasgou-se, demorou mais mas chegou lá. O Pai, muito mais arrojado, tentou PORTO, PORTUGAL, PÊRA. E ele sempre a carregar nos rr's: PORRRTO, PÉRRRRA. Ele delirava. Ficou tão feliz! Eu, claro, comovi-me. O meu filho sabe ler. Levantei-me da mesa e fiz uma dança ridícula a rir à gargalhada para que não percebessem que eu já chorava. 
Naquele momento, tinha 5 anos outra vez e lia palavras numa folha de jornal.


Passado o momento da euforia, o Pai disse-lhe: se já sabes ler, vai lá à sala ver quanto é que está o jogo. Voltou rapidamente.

- Papá, ainda está zero a zero mas não percebo uma coisa: o que é que quer dizer DIRRETO?

07/04/2015

Um dia chocante.

Ontem, estava num dia daqueles. Tudo parecia correr mal desde que acordei (mas eu cheguei a dormir??). Para piorar as coisas, à tarde, no caminho de casa para o Colégio dos miúdos:

- "atropelei" um garoto que vinha de bicicleta. Pus "aspas" porque acho que foi mais ele que me atropelou: ele ia em contramão, em grande velocidade, numa curva com descida e piso molhado. Ele viu-me e quando travou começou a derrapar e só parou no meu capot. Não quis que o levasse ao hospital, diz que não se magoou mas saiu a coxear com a bina na mão.

- fiz uma parte do eixo Norte-Sul debaixo de uma carga de água que não vi nada à frente durante uns longos dois minutos.

- já perto do Colégio, um carro decide não parar no sinal vermelho e não bate em mim por um pelinho de um careca. Ou porque sou mesmo uma exímia condutora.

Cheguei ao Colégio a tremer, mas desabafei, tomei o meu café e tratei de esquecer os incidentes.

No caminho de regresso, conto estas pequenas histórias aos filhos que me ouvem com a atenção que as suas idades permitem. O mais interessado era, sem dúvida, o António que está na fase de adorar um pequeno drama, um grande acidente ou a desgraça alheia. A meio do caminho, vemos um acidente: uma mota toda partida, o condutor deitado no chão, umas cinco pessoas ao telefone à sua volta. Não que costume parar para contemplar acidentes, mas o trânsito era tanto que vimos tudo com tempo e atenção.

- A mota fartiu!! Xenhori tem dói-dói? No xuelho? - diz o Manu até hoje. Está sempre (mas SEMPRE) a falar do assunto.

O António, ao fim do dia, conclui:

- Hoje, foi mesmo um dia chocante.
- Chocante? Porquê chocante?
- Porque as pessoas estavam sempre a chocar umas com as outras!

01/04/2015

Dia das Mentiras

- Hoje é dia das mentiras, por isso vou dizer aos meus amigos que vi um carro a arder quando vinha para a escola. Ah, espera... isso é o que eu digo todos os dias!!
- ...

27/03/2015

Está a tornar-se grave...

Domingo à tarde, aproveitamos os minis a dormir a sua sesta e jogamos Uno: eu, o António e o Pai. A coisa até corre bem e vamos ganhando um jogo cada um. O pequeno ainda não tem aquela destreza manual que permita manter as suas cartas na mão em leque de modo a conseguir vê-las, por isso vai passando uma a uma com pouco cuidado e nós vamos vendo o jogo dele. 
A páginas tantas, ele tem duas cartas na mão. É a vez dele jogar: coloca na mesa aquela carta que tem todas as cores e que lhe permite escolher qual a cor que quer. Como mandam as regras, depois de jogar essa carta, ele diz:

- Uno!
- Já?? - digo eu - Então, agora tens de escolher uma cor!

Ele olha para a carta que tem na mão, olha para nós, olha para a janela e diz, decidido:

- VERMELHO!

Acho estranho aquela escolha, porque sei que só lhe resta uma carta amarela. Pergunto porquê a sua escolha. 

- Oh Mamã! Porque sou do Benfica, não sabes??

10/03/2015

Como negociar aos 5 anos.

Depois de deitar os pequenos, peço ao António uma massagem nas costas, que hoje me foram massacradas. Ele faz aquela massagem à maneira dele, que não é mais que umas ligeiras pressões que sabem mesmo bem. Ao fim de meia dúzia de "pressões", fica farto e pede para parar. 
- Mas não fizeste quase nada! Faz lá mais um bocadinho que tenho mesmo muitas dores.  
- Então, só faço mais 30. 

Negócio fechado!

03/03/2015

Estar doente em casa com o mais velho:

- Tens febre?
- Sim. 
- E eu?
- Tu também. 
- Qual é o teu número?
- 39,4. 
- E o meu?
- 39,1. 
- Tu tens mais?
- Sim. 
- Ooooh... ganhaste outra vez. 

11/02/2015

"Ai, Jesus!"

Quando ouvi isto da boca do António, não pude deixar de achar graça. Cá em casa somos ateus praticantes e não costumamos ter conversas sobre religião, seja ela qual for, nem fazemos qualquer tipo de interjeição religiosa como esta que ele usou. Por isso, tive curiosidade:

- Quem é o Jesus, António, sabes?
- É o treinador do Benfica.

Ri-me à gargalhada. Afinal, a resposta não estava errada. O Pai achou que podia desenvolver mais o tema:

- Mas há outra pessoa que se chamou Jesus. Uma pessoa muito importante. Sabes quem foi?

Eu já estava à espera de ouvir a história do Messias, d'Aquele que muita gente acredita que veio salvar os Homens, da fé, da última ceia, do sacrifício, do Jesus histórico e do Jesus bíblico. Já estava a imaginar a cabeça daquela criança a andar a mil à hora com conceitos novos como o baptismo, a ressurreição, a crucificação e afins. Estava a ficar preocupada.

- Ah! Estás a falar daquela primeira pessoa que nasceu no mundo?



Lista de compras: livro sobre o cristianismo explicado aos ateus. 

04/02/2015

De menina??

Há uns dias, o António pediu-me para sair do Ballet.
- Não quero ir mais para o Ballet, Mamã. Não gosto nada de dançar.
Eu não quis explorar muito o assunto na altura, até porque já estava atrasado para o futebol. Disse apenas que depois falaríamos no assunto com calma, mas que durante o ano lectivo estaria fora de questão. Até porque vai haver um espectáculo daqui a duas semanas (ca nervos!!!) e já estão a contar com ele e blá blá blá. O assunto adormeceu.

Mais tarde, tivemos ensaio para o espectáculo (já disse? ca nervos!!!), o primeiro ensaio em que estivemos os três: eu, o António e o Pai. Com o Pai em trabalho, estive quase o tempo todo com o puto, ele viu-me a dançar, eu vi-o a dançar, elogiei, gostei mesmo de o ver e nem a presença dos pais o atrapalhou. Estava mesmo giro, o raio do miúdo, cheio de pinta e concentração. Saímos os dois da escola de dança (o Pai ainda ficou em trabalho) super animados, a falar do Ballet e do Hip hop e do que gostamos mais de ver um no outro. Não falou em desistir.

Uns dias depois:
- O Xavier* disse que o Ballet é para meninas.

Tudo se tornou claro. Claro e triste. O meu filho quer sair do Ballet porque um amiguinho da escola lhe disse que o Ballet é para meninas. Eu fiquei triste por saber que, em pleno século XXI, ainda há quem pense assim. Não pensem que culpo o amiguinho: ninguém nasce ensinado e aquela criança ouviu aquilo em algum lado. Também não culpo a família do amiguinho: ninguém é obrigado a gostar de Dança e a ver em casa bailados nas horas vagas. Se aquele garoto tivesse visto, pelo menos, dois minutos de uma peça de bailado saberia que há meninos no Ballet. 
Fico chocada que ainda haja esta diferença entre o que é de menina e o que é de menino. Fico triste pelos estereótipos que o meu filho aprende por convivência. Enquanto houver um adulto (seja ele Pai, Mãe, Avô/ó, primo/a, vizinho/a) com um comentário deste género, há uma série de crianças que não faz o que quer ou gosta ou tem vocação porque não é para o seu género.

- O Xavier disse isso? Coitado, se calhar ele também pensa que o futebol é para meninos.
- Ah, não é não, porque lá no meu futebol há meninas!
- E no teu Ballet não há meninos?
- Há, o Gabriel, o Lucas, o N., o Pedro, o...
- E no Hip hop? 
- No Hip hop há muitos meninos!
- Então tens que explicar ao Xavier que não há coisas para meninas e coisas para meninos.

Quando eu era pequena, queria ir para a tropa. E sempre ouvi que "a tropa é para meninos", mas nunca ouvi isso dos meus Pais e eles nunca me disseram que não podia ir. Calhou nunca ter ido para a tropa. Se calhar, era mais feliz. Ou não. Nunca saberei.


*nome fictício, claro.